quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Descanso merecido

Não faz o menor sentido que o VinteUm, com menos de um mês de vida, entre agora em recesso por um logo período, devido a férias deste pobre jornalista e a uma carga de trabalho extra que vem por aí. Mas é assim que funciona a vida, cheia de imprevistos e acontecimentos... Espreguiça... Estica o braço.... E voltaremos lá por meados de novembro, de repente já com a confirmação de uma temporada de NBA ou com nosso Nenê seguindo os companheiros de Denver Nuggets para marcar 40 pontos por jogo na China. Vai saber. Até!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

AirCongo

Sem Bo McCalebb, a Macedônia jamais teria chegado a uma semifinal de Eurobasket. Sem Serge Ibaka, a Espanha teria sido campeã neste domingo na Lituânia?

Em primeiro momento, pode parecer um exagero, já que se trata de um time que já era o campeão europeu e conquistou uma prata olímpica e um ouro no Mundial nos últimos cinco anos com uma base muito forte, que passou por uma reformulação suave nas últimas temporadas (mais sobre isso, depois). Mas vamos bater o pé aqui e ousar seguir com essa linha. 

Ibaka passou jogou na Espanha por 3 temporadas
A naturalização do pivô congolês, sem meias palavras, foi uma apelação e uma vergonha, especialmente para um país que tanto se orgulha da produção interna de craques – que é fenomenal, de fato. Por mais que se diga que o jovem Serge tenha passado pelo basquete espanhol e que sua prosperidade no esporte se deva a isso, ele só ingressou no CB L'Hospitalet, das ligas menores, aos 17 anos de idade. 

Isto é, não foi a Espanha quem incutiu o basquete em Ibaka, foi na Espanha que ele aprendeu os primeiros fundamentos do jogo. Seus pais eram jogadores defenderam seleções nacionais. Ao todo, o ala-pivô passou apenas três temporadas em território ibérico. Talvez seja o suficiente para identificação com uma pátria, mas era algo que a FIBA deveria permitir?Por mais que o atleta seja eternamente agradecido ao desenvolvimento que teve por lá, imagino que as regras poderiam ser mais restritas.

No fim, a federação espanhola, esperta de tudo, aproveitou a brecha e incorporou ao seu elenco um jogador que oferece habilidades completamente diferentes do que a já fortíssima seleção teve. Uma impulsão, velocidade, envergadura e maleabilidade absurdas e uma determinação que tornam todos esses atributos ainda mais assustadores. O mais próximo disso que o basquete espanhol tem é o ala-pivô Fran Vasquez, do Barcelona, que é, no entanto, muito mais inconsistente e não chega a ter o nível de capacidade atlética do africano. 

Os efeitos da presença de Ibaka foram evidentes na decisão contra a França, quando ele deu cinco tocos em oito minutos  de ação no segundo quarto. Cinco! Em oito minutos! Sem contar as bandejas forçadas e alteradas pelo temor de suas raquetas. E tudo isso é apenas um luxo na rotação de pivôs da equipe, que, na falta de um, tem dois irmãos Gasol em ótima forma, criando uma muralha em seu garrafão. Essa proteção no aro praticamente anulou a principal virtude dos franceses, que são as infiltrações, justamente o carro-chefe de Tony Parker.

As raquetas de Ibaka vindo do lado contrário forçaram os franceses a buscar o jogo exterior, que é o ponto fraco desse time por anos. Na final, acertaram 40,9% dos chutes de longa distância, mas a Espanha podia conviver com isso muito bem, obrigado, ainda mais contando que Parker converteu duas de cinco e o balofo Boris Diaw duas de duas, um aproveitamento que não condiz com seus históricos. Por outro lado, o melhor arremessador dos Bleus foi vigiados de perto: Nicolas Batum (2/8).

Xeque-mate. 

O curioso é que estamos fazendo essa pirraça toda aqui só pelo Eurobasket. Está claro, contudo, que a adição de Ibaka faz parte de um plano muito mais ambicioso, que é destronar os Estados Unidos em Londres-2012

sábado, 17 de setembro de 2011

Cavalos selvagens

Vamos falar a verdade: talento não falta no Eurobasket, mas em algumas ocasiões os embates do campeonato podem ser bem chatos. Como questiona o professor Paulo Murilo, com alguma indignação, temos um cenário com o jogo pasteurizado diante de nós, com todos os times fazendo praticamente a mesma coisa em quadra, o tempo todo, por 40 minutos. É uma apologia ao hermético (emprestando a definição do Michaelis: "2 Fechado completamente, de modo que não deixe penetrar ou escapar o ar (vasos, panelas etc.); estanque"). Esse jogo estanque que virou o padrão a ser assimilado por todas as escolas, como se fosse o único modo de se praticá-lo. 

Claro que há movimentações interessantes, com o bicho pegando  fora da bola com fileiras de corta-luz, fintas e muita defesa. A maioria dos campeões é moldada com estas características. Não esperamos também que o ritmo de peladas de alguns jogos nacionais deixe nossas fronteiras. Mas é tão custoso assim dar um pouco de liberdade aos jogadores?

O Phoenix Suns de Steve Nash já mostrou nos últimos anos que é possível fugir do padrão e ser competitivo. Você pode perguntar o que eles ganharam. Bem, o canadense ainda não tem seu anel de campeão, mas disputou três vezes a final da poderosa Conferência Oeste – isto é, foram melhores por três anos do que pelo menos outros 26 clubes –, e, uma lesão a menos para um Joe Johnson ou Raja Bell, uma suspensão a menos para Amaré Stoudemire e Boris Diaw, e quem sabe o que poderia ter acontecido?

A equipe dos sete segundos ou menos foi revolucionária e pode encarar muita resistência entre os tradicionalistas. Mas o mesmo Suns, de um modo mais recatado, também ofereceu outras perspectivas em 2009-2010 sob o comando de Alvin Gentry, com uma defesa aceitável (na média da liga em todos as análises estatísticas) e sem tanta correria, mas com inventividade no ataque, jogando sob um improviso orquestrado. 

Nem todos podem contar com Nash, um gênio em quadra. Mas há muito talento por aí afora, e há muito talento no Eurobasket. Nas semifinais disputadas neste sábado, isso era evidente. E aqui selecionamos alguns desses jogadores que mereciam um pouco mais de autonomia para esbanjar suas capacidades incomuns:

- Juan Carlos Navarro , escolta da Espanha

Juan Carlos Navarro explode em quadra mais uma vez
Ok, não é o melhor exemplo, já que esse pode mandar prender e soltar nos limites da Península Ibérica, e quem vai questionar? Seu apelido, La Bomba, está entre os melhores, se não for o melhor, e foi mais do que justificado contra a Macedônia, em especial no terceiro período. Nesta parcial, ele marcou nove pontos consecutivos nos minutos finais, de um total de 17 ou 19 pontos ( tanto faz, né?), para sua seleção, ajudando justamente a construir uma vantagem de nove pontos no placar. Desta forma, os atuais campeões europeus, enfim, se encontraram em uma situação mais confortável na partida. Uma dessas bolas foi quase uma bandeja da linha dos três pontos. Loucura? Nah, quem pode, pode. Ele marcou 35 pontos na partida, Como escreve o site da FIBA: "Havia uma sensação de déjà vu quando, pelo segundo jogo seguido, Juan Carlos Navarro explodiu no segundo tempo para esquentar seu time rumo ao triunfo". Ah, dúvida solucionada: foram 19 pontos em dez minutos.

- Pero Antic, ala-pivô da Macedônia

As tatuagens de Pero Antic deixam o congolês Ibaka para trás
Um figuraça, como expresso nas incontáveis tatuagens que mapeam seu corpanzil. Fortão de 2,10m de altura que briga feito doido nos rebotes (incomodu, e muito Pau Gasol), marca bem no pick-and-roll com agressividade, mas apresenta um jogo surpreendentemente técnico no ataque. Apesar de não ter a melhor pontaria dos três pontos (chuta em média cinco vezes de fora e converte apenas 1,5, média pífia de 30%), ele consegue iludir seus defensores em marcar seu chute. Contra a Espanha, foi engraçado: ele tem uma finta muito rápida para fingir que está armando um curioso arremesso – seu corpo fica um pouco de lado, e o braço estendido em diagonal – que pegou desprevenido o espanhol (coff! coff) Serge Ibaka e Pau Gasol diversas vezes. Engatihava, e lá se viam os grandalhões decolarem para contestar um chute que não vinha. Desta forma, abriu a defesa espanhola e conseguiu criar a partir do drible com passes corajosos e precisos. Tem 29 anos, mas com cara de 35, em uma carreira que passou por Grécia, Sérvia e Bulgária. Hoje, defende o Spartak de São Petersburgo, mas poderia jogar em ligas maiores, na certa. 

- Nicolas Batum, ala da França

Batum voa para cravar: cadê a passividade?
O basquete é muito fácil para o jogador do Portland Trail Blazers. Na verdade, parece até injusto. Poucos atletas podem jogar com a leveza deste francês, com seus movimentos aparentemente sem esforço para dar cravadas incríveis, disparar no contra-ataque, cobrir a quadra na defesa com uma velocidade impressionante, entre outros atributos que sua capacidade atlética lhe permite. Só não confunda essa graça toda com passividade: Batum hoje já não é mais aquele bom menino que muitas vezes foi questionado nas categorias de base por uma suposta falta de desejo em quadra. Talvez ele nunca se torne um assassino como Kobe Bryant, mas, aos 22 anos, já causa estragos em competição de alto nível com um jogo completo. Além as enterradas desmoralizantes e recuperações incríveis para tocos e roubos de bola, ajudando a deixar a defesa de sua equipe ainda mais compacta em parceria com  Joakim Noah, ele vem contribuindo com um acerto de 44,1% nos três pontos e 55,7% de quadra. Tudo parece muito fácil para Batum, e é um pecado que a França não use mais seus atributos no contra-ataque. 

- Andrei Kirilenko, ala da Rússia

Capitão Nascimento não aguenta: "O sistema ferrou com Andrei Kirilenko: 
O técnico David Blatt  caomanda ataques sempre muito bem estruturados e programados, um pouco da mesma realidade que o astro russo encontrou durante uma década sob o comando de Jerry Sloan no Utah Jazz, embora com princípios diferentes. Talvez seja por isso que tenha dito em entrevista após a vitória sobre a Sérvia nas quartas de final que o ala Viktor Khryapa tinha sido seu melhor jogador em quadra, como informa o veterano repórter Chris Sheridan, agora com seu próprio site e uma cobertura mais aprofundada do Eurobasket. Khryapa segue as regras e é uma figura fundamental para comandar a ofensiva inspirada nos tempos de Princeton de Blatt, com sua habilidade para fazer o passe frontal, do topo do garrafão. É um tremendo jogador, sem dúvida. Mas, quando falamos de Rússia, fica difícil ignorar o que o AK-47 traz para a quadra. Houve um dia em que ele flutuava tal como Batum. Já não é mais o caso, mas seu dinamismo ainda é louvável, sendo um jogador que pode colocar números em todos os quesitos de fundamento do jogo, um dinamismo que muitas vezes foi cerceado.

O próprio Blatt advoga em nossa causa em entrevista a Sheridan: "Ele é como um belo e selvagem cavalo. Ele joga o seu melhor quando está vagando por aí e correndo livre. Pedimos para ele jogar dentro do sistema, mas, honestamente, seus melhores momentos acontecem quando ele está faz as coisas de acordo com o que seu coração e seus instintos lhe pedem. A maior parte de suas grandes jogadas não vem da estrutura, mas da mente e do belo talento que ele possui".

Blatt é um dos melhores técnicos  do mundo, e não dava para colocar de melhor forma a proposta deste comentário. O que é de deixar maluco é o "honestamente" em seu discurso. Ele sabe e vê diariamente o que Kirilenko pode propiciar ao seu time. Mas muitas vezes o sistema não deixa – e imaginem agora, por favor, o Capitão Nascimento narrando este parágrafo. 

Por favor, deixem os cavalos correr mais. Deixem eles jogar. 

O fantastico mundo de Ron Artest – Está feito


Antes da criação do VinteUm, um projeto mais modesto, mas seguramente mais divertido era criar um blog todo voltado ao ala Ron Artest, do Los Angeles Lakers. 

Como já mencionado neste espaço, a leitura do site HoopsHype é obrigatória para qualquer fã de basquete, devido ao acúmulo absurdo de informação oferecido diariamente, com tweets e declarações dos jogadores, jornalistas, dirigentes e trechos de reportagem do mundo todo. As novelas das negociações de LeBron James e Carmelo Anthony foram certamente as líderes em manchetes nos últimos anos desse site agregador de conteúdo. Afinal, é o tipo de assunto que rende boato, respostas a boato e os boatos que, então, brotam desse processo. 
Mas há também um personagem que dia sim, dia não vai estar presente por lá, geralmente no pé dos boletins de rumores, puxando a fila dos faits divers. Ron Artest, senhoras e senhores. 
Sucessor natural de Dennis Rodman na prática do lunatismo – embora com personalidades e natureza completamente diferentes, num mano-a-mano que deve ser explorado em uma ocasião futura  –, Ron-Ron vai ganhar o seu próprio quadro aqui. Nos tempos em que a ordem é racionar na vida em sustentabilidade, o jogador não nos priva de sua condição de fonte de humor inesgotável.

Agora chega de introdução:


Está feito, gente. Demos adeus a Ron Artest nesta semana para receber de braços abertos a Bondosa Paz Mundial. O jogador do Lakers quitou as multas que tinha em Los Angeles e pôde mudar sua identidade para Metta World Peace. "Preparem-se para comprar camisas de World Peace", mandou seu recado em entrevista ao jornalista chapinha dos boleeiros americanos, Stephen A. Smith, da rádio ESPN. O ala também se prepara para lançar seu novo site pessoal, Mettaworldpeace.com,  deixando o atual, Ronartest.com, para seu camarada "Ron, também conhecido como o Magro ARTEST (aka Slim ARTEST)".

Entre nós, no VinteUm, ele segue sendo Ron Artest, ok?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Terra de ninguém

Acreditem: é 2011, e nós ainda vamos falar nas próximas linhas sobre a perda da inocência e que o sonho acabou.  Essa nostalgia toda vem da Lituânia, em que o time anfitrião foi despachado pela surpreendente Macedônia nas quartas de final, de modo dramático, por dois pontos. 

Confira nas fotos abaixo:

Torcedoras lamentam a eliminação nas quartas do Eurobasket
Nas ruas, os fanáticos lituanos não acreditam no revés
Num dos poucos países do mundo em que o basquete é religião – milhares de pessoas se agruparam a céu aberto em espaço público para ver o jogo das quartas de final do o telão –, os corações desses seguidores foram despedaçados com a derrota da seleção dos Lietuvas pelas mão de Bo McCalebb e sua Macedônia. 

Agora pare e tente perceber se há alguma coisa de errado no parágrafo acima. 

Ok, você pode até estranhar o fato de que há pessoas dispostas a ver um jogo de basquete sentadas na rua, algo impensável num país que a modalidade é gerida feito um hobby de Brunoro e no qual, longe do futebol, só se enche um ginásio em final da esgoelada Superliga de vôlei, e olhe lá. Mas o detalhe que merece ser ressaltado aparece no complemento da frase: na terra dos Ilievskis, Antics e Samardzikis, o nome Bo McCalebb não parece se encaixar muito bem. 

Estamos falando de um armador americano, natural de Nova Orleans, cuja casa foi destruída pela passagem do furacão Katrina, que nunca teve uma chance real na NBA antes de construir sua carreira Europa e agora se tornou o jogador-símbolo do balcão de negócios e da competitividade extrema que domina o mundo da FIBA.

Você, aí, pode questionar qual é o problema disso tudo. A Rússia já não foi campeã europeia com um JR Holden na armação? Não existe um Reque Newsome jogando pelo Uruguai há anos? O Brasil, mesmo, não tentou naturalizar Larry Taylor para a Copa América? Sim, sim e sim, e aí está a gênese de um tremendo problema.

Deixe fazer, deixe passar. 

Foi esse o lema da federação internacional durante os últimos anos, e, à medida que o jogo cresceu e a briga por medalhas ou meras vagas em alguns torneios se intensificou (e "intensificou" é um baita de um eufemismo), chegamos aos dias de  vale tudo entre as confederações. Entre lutar com suas próprias forças e correr o risco de ver suas campanhas frustradas, dirigentes, técnicos e jogadores resolveram apelar. 

Há casos e casos. Holden só foi se tornar um jogador de destaque com a camisa do CSKA, vivendo por anos em Moscou. Larry jajá ganha a chave da cidade de Bauru. Al Horford se chama Alfredo, fala espanhol e seu pai defendeu a seleção dominicana. Você pode construir bons argumentos, portanto, a favor deles. Mas quando um Chris Kaman se torna alemão devido aos seus bisavôs e quando Serge Ibaka compete no torneio de enterradas da NBA como um AirCongo e veste a camisa da Espanha, é sinal de que a coisa degringolou.

Kaman e Ibaka foram inscritos no Eurobasket deste ano para aumentar as fileiras de um grupo que extrapola qualquer limite do bom senso,  cujo capitão é McCalebb. A eles se somam, por exemplo, o armador 'búlgaro' Earl Rowland, na verdade um norte-americano nascido em Berlim, o armador 'croata' Dontaye Draper, líder em assistências da competição e nascido em vizinhanca barra pesada de Baltimore, o armador 'ucraniano' Stiven Bertt, de Nova York e... É melhor parar a pesquisa por aqui.

Draper e Bertt hoje defendem clubes de seus país adotivos, mas eles chegaram esses times apenas no ano passado. Rowland já atuou na Austrália, na Letônia, na Alemanha e na Itália, mas nunca na Bulgária. O mesmo vale para McCalebb, que passou batido pela NBA ao se formar pela Universidade de New Orleans e defendeu na Europa o pequenino Mersin, da Turquia, até ser pinçado pelos scouts do Partizan Belgrado e iniciar sua jornada de conquista europeia – hoje ele é contratado do poderoso Montepaschi Siena. Nunca jogou em um clube do país dos bálcãs. O que não o impede de fazer estragos no Eurobasket com o seu valioso passaporte (que lhe facilita a inscrição as ligas do continente) e a camisa em vermelho e amarelo. 

Bandeja para McCalebb, explosivo
Não tenha dúvida: a Macedônia é a sensação do torneio continental, depois de passar a primeira fase invicta, só sofrer sua primeira derrota para a Rússia no complemento da segunda etapa e eliminar os donos da casa nesta quarta-feira. Ninguém jamais apostaria em um desfecho desses para o país. Essas façanhas seriam impossíveis sem o americano, apesar dos esforços do pivô Pero Antic, que é o segundo cestinha da equipe, com 90 (noventa!!!) pontos a menos na competição após nove rodadas. 

McCalebb já liderou o Partizan e o Siena por duas temporadas consecutivas rumo ao Final Four da Euroliga. Praticamente não há defensores europeus que conseguem brecar suas explosivas infiltrações, e o resultado está aí: ele é o quarto pontuador do Eurobasket, com 20,9 por jogo. Ele também lidera a seleção em roubos de bola e assistências e é o terceiro em tocos e o quarto em rebotes. Está bom?

A diplomacia da Macedônia certamente não tem o que reclamar. Em troca de uma simples emissão de documento, eles já estão mais do que no lucro, tanto a federação como McCalebb, aquele que talvez nunca tenha pisado no país. 

Enquanto isso, a Lituânia, com uma população de pouco mais de três milhões de pessoas, ainda faz as coisas como antigamente, confiando na sua capacidade incomum de produzir talentos e incentivar uma paixão nacional. Nem que essa paixão tenha de partir o coração de vez em quando. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Marketing é tudo

Depois daquela pergunta, a outra frase mais ouvida nesses dias em que o basquete voltou a ganhar manchetes é como a vaga olímpica pode mudar tudo para a modalidade, recentemente apontada com a quinta preferência esportiva no Brasil, com 16%, bem atrás do vôlei, que tem 46%.
Muda mesmo? A campanha em Mar del Plata gerou muito mais cobertura num espaço de três dias do que no ano inteiro. Mas não é só isso que vai mudar um quadro esquálido em que o jogo se encontra no país. O NBB avança aos poucos, traz boas novidades no mercado, mas há um problema estrutural muito maior para ser resolvido, que não pode nunca ficar nas costas de um Tiago Splitter ou de um Nenê. 
Há um trabalho volumoso a ser realizado pela confederação brasileira, que já vem se vangloriando de bons resultados obtidos em quadra nos últimos meses (tendo o pódio no Mundial Sub-19 feminino como destaque). Mas não é só isso, claro. 
Um retrato triste de como estamos muito para trás enquadrou a própria seleção masculina de Ruben Magnano há algumas semanas, em São Paulo. 
Em seu primeiro amistoso depois de mais de um mês de preparação, contra o México, a equipe foi tratada como um nada pelo marketing da CBB. N-a-d-a, como testemunhei no clube A Hebraica, em bairro nobre da capital paulistana. 
Qual era essa fotografia? Vocês desculpem a repetição de alguns termos como "não houve" no relato abaixo, foi inevitável:
1) Para quem segue o basquete paulistano, já foi muito estranha a decisão de fazer a partida na Hebraica. Estrutura para treinos eles têm, claro, trata-se de um ótimo clube. Para receber um jogo de seleção? Se você tem alguma ambição de promover a equipe, tenho minhas dúvidas. O ginásio apresenta ótima quadra, mas a formatação das arquibancadas é péssima. Os assentos são meio que inexplicáveis: como se fossem bancos de pátio escolares gigantes, de madeiras paralelas, divididos com braços de ferro soldados, reservando assim o espaço de uma 'cadeira'. O pior é o tamanho da área dos assentos: qualquer sujeito de mais de 1,80 m de altura ficou espremido. Pensando num público (alto) de basquete, essa foi uma situação bizarra -- a nota positiva é que ao menos os bancos se adequavam ao tamanho dos caçulas do Nosso Clube de Limeira, que formavam uma volumosa excursão no ginásio. Além disso, era no mínimo curioso ver que o clube seguia com sua vida social ativa, como se nada estivesse acontecendo ali. Da arquibancada, você via os sócios se matando na esteira de uma grande academia ou um treinamento de judô no andar inferior do edifício que fica ao lado da quadra, com seus largos e altos vitrais.
2) Não só não houve uma ação de marketing durante toda a estadia da equipe em São Paulo – tirando o camp pessoal do Tiago Splitter, que também só foi divulgado pelo jogador em seu Twitter – , como não havia nada de especial no próprio ginásio na noite do jogo. Incrível. Não houve distribuição de flyers, guias, pôsteres, ou mesmo cartazes de cartolina pintados com giz de cera. Patrocinadores presentes? Com exceção da propaganda básica rodeando a quadra, para as câmeras do SporTV, não havia nada. Tampouco houve venda de nenhum material da Nike sobre a Seleção. Somada essa seca ao fato de que os treinos foram fechados em sua grande parte – dificultando o trabalho de divulgação por parte da mídia –, o baixo público no jogo foi facilmente explicado. E pode ter certeza: na Hebraica, a esmagadora maioria do público presente era formado de basqueteiros , gente que iria ao ginásio mesmo por um Pinheiros x CETAF. Nada de errado com esses espectador, claro. O ponto é que o 'novo'público' não esteve presente para conhecer a seleção, ou mesmo o basquete. 
3) No jogo disputado na Hebraica, não houve nem mesmo um locutor oficial ou um mestre de cerimônias. O resultado é que nem os jogadores brasileiros, muito menos os mexicanos foram apresentados ao público presente (maior que o da segunda partida no Paulistano, o que foi inexplicável, considerando que estamos falando de um sábado ensolarado em São Paulo, num clube de acesso muito mais fácil, com uma estação de metrô a dez minutos a pé). No sistema de som local, uma seqüência manjadona de rap, e só. Considerando que tínhamos um grupo renovado, cheio de jovens atletas que atuam na Espanha há tempos e que realmente precisavam de uma introdução, essa foi uma falha capital. Para os poucos presentes, você podia imaginar exclamações fictícias e bizarras como: "Toca para o 11!", "Esse 7 pula muito", etc. Não seria legal, talvez, ter colocado um Splitter, que não jogou mesmo, no microfone para conversar com a platéia ou fazer um discurso mínimo antes da partida? 
4) Nem o protocolo foi respeitado. O hino nacional mexicano começou a ser tocado quando os jogadores estavam no finzinho do aquecimento. O resultado? Tanto brasileiros com os estrangeiros tiveram de correr pra se alinhar, já com a música em andamento. 
5) Havia apenas um placar eletrônico tímido no ginásio, posicionado na parede atrás de uma das tabelas (a outra tabela é margeada por uma grade). Dependendo do ângulo do torcedor na arquibancada, você não poderia saber o tempo de jogo ou o resultado, já que o placar ficava encoberto por uma tabela erguida. 
Agora uma constatação extra que está indiretamente envolvida com isso tudo: é muito difícil se acostumar com esse uniforme branco da Seleção. Foi minha primeira vez vendo o time em ação de modo tão pálido, digamos. Dessa impressão tiramos ao menos uma constatação: novamente, a fraca divulgação da equipe – as imagens da seleção vestida de branco ainda não estão gravadas na nossa cabeça, não se cria uma identidade. Diante de um México jogando de preto, num jogo sem divulgação, poderíamos pensar que estávamos de uma partida entre Uzbequistão e Nigéria, ou qualquer confronto imaginável.
José Carlos Brunoro muitas vezes se pronuncia com um todo-poderoso na CBB e também é defendindo como um segundo-em-comando. Seria bom que ele se dedicasse ao cargo ao qual foi atrelado na campanha de Carlos Nunes: o marketing. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Bye, Bye, Brasil

Depois de um dia de comemoração pela classificação para as Olimpíadas de Londres 2012, só se fala em uma coisa agora no basquete brasileiro: a disputa pela liderança nos grupos do Campeonato Paulista!

Hm…

Fora os envolvidos na elaboração de nosso calendário nacional, de um excelente timing, acho que todo mundo sabe que essa realmente não é a pergunta mais feita para técnicos, ex-jogadores e qualquer um mais interessado no bola ao cesto nas últimas 48 horas. 

Sim, Leandrinho e Nenê, são vocês.

Nenê, ele mesmo, na Argentina, dez anos atrás - CBB


Nesse ponto, parece muito claro que Anderson Varejão só não vai para a Olimpíada por algum problema físico. Dentre os cardeais (*citação obrigatória do professor Paulo Murilo), a voz manifestada em público foi uníssona: o capixaba, em recuperação de uma grave lesão no tornozelo, tem espaço aberto para retornar ao grupo. 

O caso dos outros dois é um pouco mais nebuloso, o que combina bem, afinal de contas, já que a possibilidade apresentação da dupla a cada convocação é sempre um mistério. A impressão passada por esses mesmos jogadores da seleção é a de que Leandro Barbosa tem melhor receptividade, embora a grande maioria dos basqueteiros online repudie a dupla de vez.  

Nenê, no desembarque dos atletas em São Paulo, foi solenemente ignorado por Tiago Splitter, que citou Varejão e até mesmo o versátil Murilo como os atletas que poderiam reingressar na equipe – e o jogador do São José, de fato, perdeu seu primeiro torneio apenas neste ano, jogando até mesmo os Sul-Americanos da vida e não pode ser esquecido em meio ao surgimento de Augusto Lima e a campanha de pé-no-peito-tô-chegando de Hettsheimeir. Isso sem falar nas declarações contundentes de Alex, antes mesmo da conquista da vaga, de que só viu o pivô dos Nuggets umas duas vezes na vida. 

Ruben Magnano, em entrevista ao repórter Cícero Mello, da ESPN, que aproveitou a cobertura da Seleção de Neymar para caçá-lo em Córdoba, afirmou algo na linha de que qualquer jogador pode ir para Londres, comprando ingressos, passagens, um pacote na CVC, seja lá o que for. Quando questionado, ok, se ele queria algum deles por lá, o argentino não disse que sim, nem que não, mas rebateu apenas insinuando que o querer, neste caso, tinha mais a ver com os jogadores do que com eles – há uma necessidade de comprometimento com seus objetivos. Ligeirinho que só, Leandrinho já deixou claro que a capital inglesa é com ele. O outro? Só Deus sabe.

Leandrinho ouve Magnano no Mundial de 2010. Agora é Magnano quem quer ouvir - CBB

Nessas entrelinhas, leio que o treinador vai esperar alguma sinalização por parte de Barbosa e Hilário, antes de qualquer coisa. Naturalmente, se já não o fez, também deve entrar em contato com a cúpula de seu elenco para se posicionar no debate. 

Já o presidente da CBB, Carlos Nunes, com a sutileza de um Paulão Prestes, afirmou de cara, que, fosse ele o técnico, não teria lugar para nenhum dos dois no time. Jogou com a galera e fez aquilo que cartolas de confederações brasileiras sabem bem fazer: m…olecagem.

E o que pensar de tudo isso?

Vamos lá:

- É isso: Varejão (hoje) está dentro. 

- Pensando nas desavenças de Nenê com a administração anterior, uma declaração dessas por parte do digníssimo presidente não ajuda em nada sua reintegração, se esse for o desejo de Magnano. Cadê o Brunoro pra fazer o discurso do presida?

- O pivô do Denver não vai ser daqueles que saem pedindo perdão, senhor, perdão. Quem se lembra de 2007? Depois do racha com Grego (lembremos: o presidente da CBB havia intercedido em favor do Vasco, que cobrava uma multa para liberá-lo para a NBA, apesar de salários atrasados), Nenê jogou no Pré-Olímpico de 2003 e se ausentou por quatro anos. Quando retornou, voltou com a banca toda, como um César em retorno a Roma: chamou coletiva em sua cidade no interior paulista, convocou Valtinho – que, aí, sim, retornou para o grupo –, pediu Rogério Klafke e Ratto no time e um assistente-técnico estrangeiro na comissão comandada por Lula Ferreira. 

- A vontade é realmente bater o pé e dispensar os dois: vamos com o que temos e com quem nos classificamos. O problema? Estamos há um ano dos Jogos Olímpicos. Com o locaste da NBA ainda se arrastando, há ainda mais incertezas para se pontilhar toda essa espera. Splitter vai jogar no Brasil, na Europa segue sua vida com o Spurs? No Texas, ele terá mais espaço em seu segundo ano e voltar a ser o jogador de antes? Vai se manter longe da enfermaria? E Nenê? Vai ficar parado por quanto tempo? Não custa lembrar que ele hoje é um agente livre e, se houver campeonato, pode negociar uma bolada. Se fechar um novo contrato milionário, haverá alguma cláusula referente a Londres? E o pulso de Leandrinho? Faz mais de um ano que o jogador convive com essas reclamações. Veja bem: essas são perguntas envolvendo apenas três jogadores. Há outras tantas cercando o desenvolvimento dos jogadores mais jovens presentes em Mar del Plata e mesmo dos veteranos. 

O fantástico mundo de Ron Artest - A filha da paz


Antes da criação do VinteUm, um projeto mais modesto, mas seguramente mais divertido era criar um blog todo voltado ao ala Ron Artest, do Los Angeles Lakers. 

Como já mencionado neste espaço, a leitura do site HoopsHype é obrigatória para qualquer fã de basquete, devido ao acúmulo absurdo de informação oferecido diariamente, com tweets e declarações dos jogadores, jornalistas, dirigentes e trechos de reportagem do mundo todo. As novelas das negociações de LeBron James e Carmelo Anthony foram certamente as líderes em manchetes nos últimos anos desse site agregador de conteúdo. Afinal, é o tipo de assunto que rende boato, respostas a boato e os boatos que, então, brotam desse processo. 
Mas há também um personagem que dia sim, dia não vai estar presente por lá, geralmente no pé dos boletins de rumores, puxando a fila dos faits divers. Ron Artest, senhoras e senhores. 
Sucessor natural de Dennis Rodman na prática do lunatismo – embora com personalidades e natureza completamente diferentes, num mano-a-mano que deve ser explorado em uma ocasião futura  –, Ron-Ron vai ganhar o seu próprio quadro aqui. Nos tempos em que a ordem é racionar na vida em sustentabilidade, o jogador não nos priva de sua condição de fonte de humor inesgotável.
Agora chega de introdução:



A essa altura, embora ofuscada pela disputa entre atletas e proprietários da liga, boa parte da comunidade basqueteira já sabe que Ron Artest quer trocar de nome. Ele espera ser conhecido como Metta World Peace, a Paz Mundial Metta, que seria a Paz Mundial via benevolência, amizade, boa vontade, amor e qualquer sentimento de bondade em geral canalizado em um dos pilares budistas. A despeito da ignorância laica deste parágrafo, acho que dá para entender o sentido da coisa, não? Aliás, a combinação de Metta + World Peace, na verdade,  dispensava qualquer explicação. Então façamos nossas reverências necessárias e sigamos adiante. 

Ron-Ron só não conseguiu ainda completar o processo, pois o juiz responsável pela canetada freou a mudança enquanto o jogador não regularizar suas pendências com o departamento de trânsito de LA.

A decisão naturalmente despertou estranheza. As reações ainda foram limitadas em público, mas você tem de especular o que será que Kobe Bryant está pensando a respeito e se Pau Gasol vai entender alguma coisa… E quanto a Larry Brid? Reggie Miller? Os torcedores hardcore de Detroit? A paz mundial bem que poderia ter chegado antes daquele incidente no Palace, antes de arruinar o Indiana Pacers por anos.

De todo modo, no conforto do lar, Artest já ganhou o apoio de sua filha, Diamond, segundo informa o portal das fofocas, o TMZ – e aqui fica o compromisso de evitar citações desse megaportal, ok? Nada de Kardashians será publicado. A menininha gostou da brincadeira e também quer ser uma World Peace ela mesma. Aí fica mais fácil de entender:  a pequena seria a Paz Mundial Diamantina. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Rumo a Londres

Confira abaixo notas e comentários (nem tão breves) de um leigo sobre os 12 jogadores que ajudaram o Brasil a se classificar pela primeira vez para uma Olimpíada desde as peripécias de um já trintão Oscar Schmidt em 1996. Todos os números levam em conta o rendimento dos atletas até a semifinal do torneio:

- Marcelinho Huertas: o principal jogador da seleção brasileira hoje, tanto por viver sua melhor fase – e, a cada ano, a fase parece melhorar –, como pela dificuldade em se encontrar um substituto que lhe dê alguns minutos de descanso sem que o rendimento do time despenque em quadra. No total, teve 20 minutos de tempo de jogo a mais do que qualquer outro atleta da equipe. Foi muito mais agressivo ofensivamente durante o torneio, algo que é apreciado nestas bandas, abusando de sua habilidade nos arremessos em flutuação, entendendo que precisava ser o dínamo a fazer a equipe jogar. A partir de suas infiltrações que os arremessos de fora se abriram. Nas bolas de três, é clara a diferença de rendimento quando chuta com os pés plantados em comparação com os chutes em movimento. 
>> Rumo a Londres: no Barcelona, Huertas verá seu tempo de quadra cair drasticamente devido ao volumoso elenco do clube catalão, embora também seja certo que sua temporada vá durar mais, já que é hábito do time freqüentar as decisões da Liga ACB e da Euroliga. Em sua nova equipe, ele deve ter um trabalho muito mais de maestro do que de finalizador.

Rafael Luz: torneio de calouro pela seleção - CBB
- Rafael Luz: muito jovem, aos 19 anos, Rafael sentiu a pressão na Copa América, apesar de ter jogado uma temporada inteira na elite do basquete espanhol. A diferença é que lá ele atua muito mais como escolta do que como principal condutor de bola da equipe, função que tinha de desempenhar na Argentina para dar algum descanso a Huertas. Chegou a discutir em quadra com Rúben Magnano em uma partida e acabou vendo seu tempo de quadra se reduzir no decorrer da competição, mas foi usado pelo argentino em minutos importantes na decisão em um importante teste. Tem boa capacidade atlética e força considerável para a posição e pode se tornar um grande marcador. É também um bom arremessador. Afinal, isso é coisa de família.
>> Rumo a Londres: "Rafa Freire", como é conhecido por lá, vai jogar o campeonato espanhol pelo Luncetum Alicante, pelo qual vai poder desempenhar com mais tempo à armação, atuando como substituto do veterano Pedro Llompart. Seu progresso deve ser acompanhado de perto pela comissão técnica brasileira, lembrando que Jogos Olímpicos não abrem espaço para experiências. 

- Nezinho: foi o que menos jogou no Pré-Olímpico, apenas 42 em nove partidas, 15 deles contra Cuba. Ele marcou apenas quatro pontos no torneio, todos eles nos instantes finais da sacolada para cima de Porto Rico, tendo acertado dois em dez arremessos. Seu nervosismo na hora da definição de jogadas era evidente, numa situação de pressão tanto por ter perdido o posto de primeiro reserva para o jovem Rafael, como pela constante desconfiança em torno de seu nome a cada convocação. Teve o mesmo número de erros e assistências (sete).
>> Rumo a Londres: parece o jogador mais ameaçado a perder seu espaço no grupo olímpico, pois não faz sentido levar um jogador de sua experiência para apenas esquentar o banco. No Brasília, mais do mesmo: vai brigar pelo título do NBB, mas o quanto seu jogo será diferente?

 - Vitor Benite: jogou mais como escolta e mesmo um lateral do que como armador, que é a posição esperada para ele no desenvolvimento de sua carreira. Foi o substituto de Alex na rotação. Fez dois ótimos jogos contra Cuba (café com leite) e Uruguai, no qual fez chover da linha de três pontos, mas teve tempo limitado de quadra nas partidas decisivas. Foi o melhor gatilho da seleção, com média de 55,6% de três pontos e 81,8% nos dois pontos, sem sentir a pressão. Porém, podia ter ajudado mais Huertas nos momentos em que esteve em quadra para aliviar a pressão sobre nosso maestro. Restam dúvidas sobre sua capacidade para a função.
>> Rumo a Londres: vai estrear pelo Limeira neste ano, tendo defendido sua saída de Franca pela perspectiva de atuar mais na posição de armador do que como ala, como acontecia ao lado de Penna e Helinho. O acordo teria sido selado com a anuência de Demétrius, assistente na comissão de Magnano. Basta saber se ele vai conseguir se impor na posição com a forte concorrência de Eric Tatu, Ronald Ramon, Neto e do novato Deryk. Creio que esse é um dos pontos mais importantes e interessantes para se observar durante a temporada nacional. 

- Alex: um cachorrão na defesa. Teve atuações implacáveis contra os astros Manu Ginóbili e Carlos Arroyo, com uma agressividade assustadora – se a impulsão não parece a mesma dos tempos de Ribeirão Preto, seu vigor físico e velocidade ainda impressionam, não importando sua baixa estatura. É isso: quando está focado, é um dos melhores marcadores de perímetro do mundo. Mesmo, e sua temporada pelo Maccabi Tel Aviv, como titular de um time de Final Four de Euroliga, foi a prova disso. Fez o serviço sujo na defesa de modo louvável, mas não se furtou de arriscar demais em seus chutes de longa distância injustificáveis. O resultado não é feio apenas em sua mecânica, mas também em seu resultado (23,1% de aproveitamento, tendo matado apenas seis de 26 bolas). Algo que precisa ser corrigido. É uma força no contra-ataque.
>> Rumo a Londres: no Brasília, Alex tem a liberdade para arremessar de onde quiser, quando quiser. Para qualquer chance de seleção na Olimpíada, o desempenho defensivo do ala será vital. 

- Marquinhos: começou o Pré-Olímpico com um rendimento muito abaixo do que pode render, mas foi ganhando espaço à medida que que o time evoluiu no torneio, não por acaso. Quando partiu para a cesta, em vez de se limitar aos chutes de três, causou muito mais trabalho para as defesas adversárias, com seu tamanho e envergadura. Era algo que deveria fazer mais, não? Muito versátil, superou Carlos Delfino em dois confrontos diretos, mostrando seu potencial. Foi outro que também surpreendeu na defesa, tendo encarado até mesmo Al Horford no mano-a-mano no primeiro quarto da semifinal contra a República Dominicana e se saído muito bem.
>> Rumo a Londres: talento não falta. Parece ter chegado à maturidade também. Seu desafio pelo Pinheiros agora é carregar o time um degrau acima no NBB, tentando desbancar Brasília ou Flamengo. Para isso acontecer, seu time precisará de um Marcus Vinícius muito agressivo e intenso, nos dois lados da quadra.

- Marcelinho Machado: mais sobre sua dependência dos tiros de fora aqui. Seu tempo de quadra foi limitado a 19 minutos durante o torneio, na função de sexto homem, revezando com Alex e Marquinhos.
>> Rumo a Londres: no final de sua carreira, será premiado com a primeira Olimpíada, numa redenção bem-vinda a um jogador que já fez muita besteira em quadra (muitas brigas), mas também apanhou demais e de modo injusto durante uma década, como se o presidente da CBB fosse ele. É muito respeitado pelos treinadores adversários. No Flamengo, enquanto o locaute da NBA durar, todos os olhos serão voltados para sua dupla com Leandrinho. Na seleção, o ala aceitou a redução no seu volume de jogo. Na Gávea, com o vai ser?

- Guilherme Giovannoni: Dos 72 arremessos que tentou na Copa América até a decisão, 36 (50%) vieram de longa distância. Matou 44% delas e cumpre uma função tática para abrir a quadra. Mas talvez dependa em demasia desse tiro de fora, abrindo mão de infiltrações. Seu jogo ofensivo já foi mais versátil. De todo, foi combativo como nunca na defesa, se empenhou nos rebotes contra rivais mais fortes e maiores e ganhou moral com Magnano. 
>> Rumo a Londres: entra no NBB como seu atual MVP e é novamente um dos candidatos ao prêmio. Com Varejão, deve perder o posto de titular e minutos e arremessos.

- Augusto Lima: Foi usado por Magnano em situações pontuais, na conclusão de alguns quartos, para poupar seus titulares de faltas, ou com o jogo já vencido. Nos amistosos, teve mais oportunidades e mostrou que é um talento que pode contribuir para a equipe no futuro devido a sua capacidade atlética especial (ele parece feito de borracha), velocidade e impulsão, atacando os rebotes ofensivos e em tocos do lado contrário, na cobertura. No ataque, já se arrisca com chutes de média distância sem temor, podendo desenvolver esse aspecto de seu jogo ainda mais. 
>> Rumo a Londres: essa temporada na Espanha é vital para o seu desenvolvimento. Augusto tem a expectativa de elevar sua produção em relação ao já promissor rendimento da temporada passada. Ele será analisado de perto pelos scouts da NBA e pode ser mais um a cruzar o Atlântico em um futuro próximo.

Hettsheimeir pega Scola de surpresa em Mar del Plata
- Rafael Hettsheimeir: A grande surpresa brasileira no Pré-Olímpico. Sua atuação contra a Argentina foi histórica, desestabilizando o aparentemente inabalável Luis Scola ao superá-lo tanto no ataque como na defesa. Impressionante para um jogador de 25 anos que é o caso de um brasileiro que se desenvolveu bem na Espanha, ao contrário de muitos garotos de sua geração que ainda estão nas ligas menores do país. Tornou-se a bola de segurança da equipe no garrafão (foi o quarto certinha, com 9,1 pontos por partidal) e até merecia mais minutos não fosse o apreço de Magnano por Splitter.
>> Rumo a Londres: Hettsheimeir já é uma figura estabelecida na Espanha, com tempo de quadra e função importante no Zaragoza. O desempenho em um curto período na Argentina (15,1 minutos) praticamente lhe garante na Olimpíada e deve lhe dar muita confiança para a próxima temporada. Poderia refinar mais seu jogo de pés, para basear seus movimentos menos em força e envergadura.

- Tiago Splitter: não pareceu certo que o melhor jogador brasileiro disputasse o seu pior torneio pela seleção justamente na ocasião da classificação olímpica. Fora de forma, sem confiança e ritmo de jogo depois de uma loooonga temporada no Texas, Splitter esteve irreconhecível em quadra. Só conseguiu lidar com os times mais baixos, como Venezuela e Porto Rico (sem Santiago, Ramos e Reyes). De resto, sofreu muitos tocos, alguns deles humilhantes e seus ganchos não funcionaram. Terminou com apenas 8,3 pontos por jogo e aproveitamento abaixo dos 50% de quadra, algo muito incomum em sua carreira. Seu desempenho no lance livre, que nunca foi o seu forte, caiu ainda mais, deixando Shaquille O'Neal e Dwight Howard orgulhosos. Por outro lado, sua presença física e sua inteligência foram fundamentais na defesa, tanto nos rebotes como no fechamento de espaços. 
>> Rumo a Londres: a torcida é para que o catarinense consiga ficar afastado das lesões e ganhe mais espaço no Spurs – sua performance nos playoffs foi um ponto positivo nessa direção. Isto é, se houver temporada da NBA, claro. Caso o locaute se estenda, certamente terá propostas europeias e brasileiras, e ele precisa de cada minuto em quadra para retomar a técnica que o consagrou no País Basco. 

- Caio Torres: o pivô mais técnico da equipe de costas para a cesta, perdeu peso e fez um bom campeonato na Espanha no ano passado. Em uma seleção brasileira que priorizou a velocidade em transição, porém, seu jogo acaba destoando. É grande, mas pouco ágil para acompanhar esse ritmo.
>> Rumo a Londres: sua posição é a que apresenta a maior concorrência por uma vaga no time. Atuando no Flamengo, vai ser observado com maior facilidade, mas corre o risco também de ser muito pouco municiado em uma equipe com muitos pontuadores no perímetro.

Machadada maluca

Não deixa de ser irônico que, no jogo de definição da vaga olímpica, a mão certeira tenha sido a de Marcelinho Machado, inclusive cabendo a ele colocar os últimos pontos no placar, já lutando para segurar as lágrimas. 

Eleito por torcedores enfezados o inimigo público número um do basquete brasileiro – imagine se tanta raiva fosse canalizada para os vilões de fato, e alvo aqui não falta –, ele anotou 20 pontos contra a República Dominicana, convertendo cinco de oito arremessos de longa distância (vale reforçar aqui o fato de que, descontados os seus chutes, o aproveitamento brasileiro foi de pífios 27% na semifinal). Foi a melhor atuação do veterano flamenguista, disparada, no torneio: ele ainda deu quatro assistências em 25 minutos, sem nenhum desperdício de bola. Tudo bem acima de sua média no torneio, de 9,0 pontos, 1,3 assistência e mira de 38,3% nos três pontos. 

Ao passo em que os anos vão pesando (36 anos), algo que às vezes pode passar despercebido devido ao seu porte físico esguio, seu jogo vai se centrando cada vez mais nos tiros de fora. Em Mar del Plata, apenas 72,3% de seus arremessos vieram em bolas de três pontos, o que é muito (47 de 66 chutes). 

A boa notícia, nesse caso, é que, por sua altura incomum para a posição, a habilidade de arremessador de Marcelinho vai se sustentando, fazendo John Calipari pagar caro por um longo período no terceiro quarto em que decidiu inverter os marcadores e colocar o longelíneo Francisco Garcia na pressão em cima de Huertas e o armador Ronald Ramon na perseguição a Machado, um jogador 19 centímetros mais alto. Era muita coisa para ser contestado.

Ramon, aliás, assim como Pascoal Roeller em 2008 pela Alemanha, se aproximou perigosamente daquele status de carrasco inesperado contra a seleção brasileira, tendo marcado 13 pontos em quadra e algumas bolas de três pontos completamente descontroladas.

O dominicano teve uma jornada exemplar para ganhar a alcunha crazy shooter, aquela que já rendeu mais de uma bíblia de páginas virtuais em fóruns dos basqueteiros brasileiros para esculhambar Machado, como se ele fosse o único cardeal (a bem-humorada e precisa definição do professor Paulo Murilo era obrigatória aqui) a viver desta maneira na seleção nos últimos anos. 

Ninguém julgou Machado como um maluco neste sábado. 

Quando menos é mais

Ufa! Habemus vaga. 

Ruben Magnano mais do que justificou o investimento em seus serviços, ao conseguir algo que seus antecessores falharam miseravelmente em fazer: enquadrar os egos de uma turma da pesada da seleção brasileira, exigir dedicação máxima desses mesmos jogadores na defesa, como condição sine qua non (duas situações em latim logo de cara, reparem) para se ter tempo de quadra. 

Além disso, sua liderança passou ao instável elenco uma consistência jamais vista na última década, sabendo eles reagir mesmo nos momentos mais difíceis, como o susto na estréia contra a Venezuela, que poderia ter colocado tudo abaixo, e na reação do time na segunda semana de torneio, depois de revés para os dominicanos e um péssimo jogo contra Cuba. 


O Brasil, pela primeira vez em muito tempo, soube vencer partidas parelhas, como a semifinal-valendo-vaga comprovou seriamente. Em nenhum momento, eles se desesperaram, mesmo quando uma vantagem confortável no placar rapidamente se esvaía com a forte pressão que os caribenhos colocaram no jogo de garrafão.

Talvez nesse ponto a recusa de dois jogadores e a lesão de outro que certamente estavam em seus planos para compor a base da equipe até seja o caso do mal que veio para o bem, pois restou menos trabalho no sentido de personalidades a se controlar e ajustar.

Desta forma, sobraram também mais arremessos para serem divididos por jogadores que só estão acostumados a atuar em seus clubes de uma só maneira, comandando uma artilharia muitas vezes desenfreada – Alex, no Brasil, é rei, enquanto, no Maccabi, era apenas um súdito em quadra, e dos bons, diga-se de passagem. 

No Pré-Olímpico, eles se prestaram a passar mais a bola, gerando 17,7 assistências por jogo (sete a menos no total do que a Argentina). A movimentação de bola gerou bons arremessos, valendo uma média de 40,3% no quesito, atrás de argentinos (43,2%) e venezuelanos (40,3%).

Aqui, porém, é preciso insistir naquele que ainda considero um equívoco no plano de jogo brasileiro: a dependência em excesso dos arremessos de três pontos. Contra a República Dominicana, a média de acerto foi de 40%, mas em muitas situações a vantagem brasileira no marcador subia para cair logo em seqüência em um ritmo maluco, de acordo com o aproveitamento do chutador da vez. Se descontarmos o rendimento de Marcelinho Machado na partida, o resto do time converteu apenas 5 de 18 tentativas (27,7%), e isso é péssimo, sem dúvida.

O Brasil arremessou 201 vezes de três pontos no torneio, que são 16 a mais do que a Argentina. 

Mas esse talvez possa ser muito bem o próximo item na lista de reparos do projeto de Magnano. Em 2012, no terceiro ano no cargo trabalhando basicamente com os mesmos jogadores, espera-se que a cultura de defesa já esteja devidamente assimilada – que uma temporada de maus vícios nos clubes não seja o suficiente para lhes acometer a amnésia –, para que o argentino possa dedicar mais tempo de treino ao ataque. 

Diante do que apresentou até aqui, o voto de confiança no técnico argentino é irrevogável. 

sábado, 10 de setembro de 2011

Os números da FIBA

Depois de terem batido de frente na primeira fase, disputado outros sete jogos, contra os mesmos adversários, Brasil e República Dominicana já possuem uma boa base de dados para fazer os ajustes necessários para o confronto deste sábado, pela vaga em Londres-2012. 
Aqui segue uma comparação básica dos números das duas seleções durante a campanha:
- Pontos: BRA 84,5 (3º), DOM 84 (4º)
- Rebotes: BRA 34,3 (4º), DOM 36,8 (1º)
- Assistências: BRA 18,3 (1º), DOM 13,4 (5º)
- Roubos de bola: BRA 6,1 (5º), DOM 6 (6º)
- Tocos:  BRA 2,8 (4º), DOM 3,4 (1º)
- Lances livres: BRA 69,7% (9º), DOM 69,2% (10º)
- Três pontos: BRA 40,3% (3º), DOM 32,7% (7º)
Inexplicavelmente, a FIBA não disponibiliza em seu site os números de aproveitamento de quadra nos arremessos e desperdícios de bola. 
Horford e Martínez desequilibram para os dominicanos no jogo interior, daí a diferença em rebotes e tocos, mas também influenciam no lance livre do time, o pior da competição. O Brasil se distancia dos rivais no número de assistências e no aproveitamento de três pontos. 
Para o confronto direto decisivo, seria bom ver o número de assistências elevado desta maneira e a pontaria dos três também. Desde que nosso ataque não vire refém delas, ou que não demonstremos um excesso de confiança no fundamento. Não é porque Horford e Martínez podem ser imponentes no garrarão que temos de evitar essa área pintada.  

O legado de Villanueva


Se o torcedor do San Antonio Spurs, à distância, está preocupado com o rendimento de Tiago Splitter na Copa América, imagine, então, o desgosto daquele que ainda tem um apreço pelo Detroit Pistons ao checar como anda o ala-pivô Charlie Villanueva…
Se Al Horford é a grande força da República Dominicana e Francisco Garcia tem suas contribuições esporádicas ao time, o outro terço da trinca da NBA da equipe caribenha não passa de um fiasco na competição. 
Sem condições de jogo – ao menos no alto nível que se esperava –, ele tem média de apenas 16 minutos por partida, atuando à sombra de Horford e de Jack Martínez. Sua maior contribuição por enquanto aos dominicanos se resume a frases motivacionais no Twitter. Entre as últimas, de olho na disputa da vaga olímpica, estão as seguintes: "Um grande dia para meu país, 'Um Legado é o que estou tentando deixar'" e "A 40 minutos da HISTORIA, sacrifício + jogo de equipe = VITORIA".
Sem mobilidade, pesado, não consegue bater para a cesta, desperdiçando a habilidade no drible que tem, um de seus principais recursos na liga norte-americana: soma até agora mais erros (13) do que que assistências (8). No ataque, então, acaba limitado a chutes de média e longa distância, quase sempre criados a partir de iniciativas individuais (feito um jogador de And1) – dos 42 arremessos que tentou até agora, 21 vieram de fora. Seu aproveitamento geral no torneio é de pífios 38,1%. Quer mais? Sua média de rebotes é de 3,5 até aqui, com 28 no total, um abaixo de Marquinhos. 
Esse é o mesmo Charlie Villanueva que espera receber US$ 7,5 millhões no próximo campeonato, com média de US$ 8 milhões anuais pelos três temporadas de contrato que tem pela frente com os Pistons. 
Alguns jogadores da NBA costumam usar as competições com suas seleções para tirar o ferrugem das férias e recuperar a forma, antes de chegar ao período de treinamentos com seus clubes. No caso de Villanueva e dos Pistons, talvez seja bom torcer para que o locaute dos proprietários das franquias dure mais, porque ainda há muita lenha para queimar e um legado para construir.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O irmão da Maíra

Antes de qualquer fator emocional, há o plano de jogo. Neste sábado, vamos poder observar dois técnicos consagrados em seus respectivos segmentos jogarem xadrez por 40 minutos, valendo dois eitos que seriam dignos de entrar com destaque em currículos invejáveis. 

Tendo se enfrentado há menos de dez dias, os dois crânios certamente têm os jogos em suas cabeças. Nesta sexta, ainda tiveram um dia para revisá-lo, esquadrinhá-lo e passar as diretrizes para seus atletas. 

Na cabeça do argentino, uma das preocupações centrais deve girar em torno de como lidar na defesa contra o ala-pivô Al Horford, talvez o melhor jogador do Pré-Olímpico e irmão da brasileira Maíra Fernanda, de 16 anos e São José dos Campos – o pai de ambos, Tito Horford, jogou no basquete brasileiro. 

Na primeira fase, o talento do jogador do Atlanta Hawks fez toda a diferença, criando situações difíceis para a defesa brasileira. Causou estragos com arremessos de média distância com os pés plantados (jogada que faz parte de seu repertório natural), infiltrações frontais ou em jogadas no mano-a-mano em que ficava isolado em quadra contra seu defensor e o levava, de costas para a cesta, até as imediações do garrafão, onde criava com tranquilidade. Se já não fosse o suficiente, ainda estamos falando de um jogador com boa visão de quadra e propensão a realizar o passe (acostumado que está a jogar com esfomeados feito Joe Johnson, Jamal Crawford e Josh Smith).

Como lidar com um atleta desses, que mistura força, técnica, capacidade atlética e velocidade? Certamente não será colocando Guilherme Giovannoni, que é menor e mais lento, sozinho em sua cobertura. Foi contra o ala que ele se esbaldou no primeiro confronto. Deslocar Splitter para essa missão é um problema, se o argentino não quiser Rafael Hettsheimer ao seu lado, para segurar o brutamontes Jack Martínez debaixo da tabela. Giovannoni ou Marquinhos, por mais alertas que estejam, não aguentariam o tranco, e se nem mesmo um Splitter seria capaz de segurar os dois, quanto menos um Splitter fora de forma.

A defesa brasileira vai precisar tirar Horford e sua zona de conforto, forçá-lo a receber a bola o mais distante possível do garrafão, se opondo a sua linha de passe. Uma vez que a bola esteja dominada pelo dominicano, a dobra poderia vir de diferentes direções, atacando seu drible. Agora um detalhe: seria recomendável que o jogador responsável pela marcação de Francisco Garcia não fosse o homem da ajuda. O ala do Sacramento Kings bombardeou a defesa brasileira na vitória de sua equipe. O armador Luis Flores também precisa ser pressionado.

Se os dominicanos venceram o Brasil, acabaram apanhando feio de argentinos  e porto-riquenhos. Consultando o resumo estatístico das três partidas, separamos alguns pontos interessantes, listados abaixo com breves comentários:

1) Al Horford
- PUR: 16 pontos, 9 rebotes e 7/16 nos arremessos (quatro lances livres batidos)
- ARG: 16 pontos, 8 rebotes, e 8/13 nos arremessos (nenhum lance livre)
- BRA: 22 pontos, 5 rebotes e 9/21 nos arremessos (quatro lances livres)

Percebemos que argentinos e porto-riquenhos diminuíram o volume de jogo do astro 

2) Francisco Garcia
- PUR: 2 pontos, 1 assistência, 2 erros e 1/10 nos arremessos
- ARG: 12 pontos, 2 assistências, 3 erros e 5/10 nos arremessos
- BRA: 14, 0 assistências, 3 erros e 5/8 nos arremessos (4/5 de três)

O que Porto Rico fez para forçar essa péssima noite de Garcia? O fato é que o ala teve seu melhor jogo contra os brasileiros. Olho nele, Alex.

3) Jack Martínez
- PUR: 12 pontos, 9 rebotes e 4/9 nos arremessos
- ARG: 8 pontos, 11 rebotes e 3/10 nos arremessos
- DOM: 10 pontos, 10 rebotes e 5/11 nos arremessos

Independentemente do adversário, o pivô é um terror nos rebotes. Ele precisa ser bloqueado com afinco, especialmente na tábua ofensiva.

4)  Luis Flores
- PUR: 2 pontos, 4 assistências, 4 erros, 0/5 nos arremessos
- ARG: 4 pontos, 0 assistências, 3 erros e 1/6 nos arremessos
- BRA: 10 pontos, 5 assistências, 0 erros e 4/6 nos arremessos

Luis Flores já foi um grande cestinha nos tempos de universitário nos EUA e não pode ser ignorado, possuindo bom arsenal: chute de longe, em flutuação ou bandejas – só não tem como forte o passe

O que fazer? Marcar Horford com tudo ou tentar tirar seus companheiros de jogo? É um pouco do dilema que vivemos diante de Luis Scola no Mundial do ano passado. Naquela ocasião, sabemos que a missão não deu muito certo. Não só o pivô se esbaldou, como o elenco de apoio (Jasen, Pancho...) foram bem. Por outro lado, a experiência do confronto na primeira fase em Mar del Plata já dá a Magnano uma noção do que precisa ser feito. Ele já sabe o que deu errado. Vamos aguardar o que o nosso técnico argentino tem em mente para esse novo desafio.

Mostra a tua cara

Duas seleções brasileiras  se apresentaram na Copa América em Mar del Plata, num intervalo de poucos dias. A primeira teve dificuldade para se estabelecer em quadra, se perdeu à que seus conceitos não lhe valiam vitórias que esperam assomadamente ser fáceis. A segunda representa uma reviravolta, em que a consistência defensiva seguiu por todo o jogo, incomodando adversários muito mais qualificados, dando a chance de o Brasil ou controlar o placar (Porto Rico), ou levar o jogo para uma decisão no fim e matar (Argentina). 

Para disputar a vaga olímpica contra a República Dominicana, é imperativo que apareça o segundo, não? Dãr, mas claro. Afinal, a primeira face foi justamente a que perdeu para o mesmo adversário caribenho. 

Ao menos à distância, pelos resultados das últimas duas rodadas, tudo aponta para uma classificação brasileira. A equipe de Rúben Magnano se livrou de um fardo enorme ao derrotar a Argentina, para depois descer uma marretada surpreendente em Porto Rico. Já a República Dominicana perdeu por 26 e 17 pontos, respectivamente, para esses adversários. 

O doping moral que o Brasil ganhou com a vitória diante de seus algozes da última década se repercutiu de maneira imediata na surra para cima de Porto Rico. Do outro lado, os dominicanos sofreram um baque muito grande com a lesão sofrida pelo armador Edgar Sosa, uma fratura exposta em pleno jogo, além de terem perdido um jogador importante em sua frágil rotação de perímetro.

A dúvida que fica é se a quebra no ritmo das duas equipes nesta sexta-feira e o peso da disputa da vaga, na qual o Brasil volta a ser o favorito disparado, jogando deste modo sob pressão, podem pesar de alguma forma para o lado contrário dessa balança.